Parceiros e amor geram reflexos nas profissões jurídicas

O nome parceiro aqui é posto para generalizar todas as relações amorosas, das temporárias, sem comprometimento, aos casamentos que chegam a celebrar bodas de diamante. Passageiras ou eternas, o certo é que as relações afetivas geram reflexos diretos ou indiretos nas profissões jurídicas, delas resultando sucesso ou fracasso.
Se esta é uma premissa, importante é reconhecer, em um segundo momento, que todos, estudantes ou profissionais do Direito, desejam alcançar sucesso nas suas atividades profissionais, muito embora o grau de ambição varie de uma para outra pessoa. Destes dois fatos resulta ser de todo recomendável que o assunto seja estudado nas suas múltiplas facetas e sempre com os olhos postos em exemplos da vida real.
O início é feito pela Faculdade de Direito, onde são dados os primeiros passos para a vida adulta. Na transição da adolescência para a maturidade podem surgir relacionamentos mais sérios. O convívio facilita as coisas. E, muito embora os impulsos do amor não sejam regrados por normas imutáveis e uniformes, prevalecendo a emoção sobre a razão, alguns detalhes precisam ser examinados.
 
Uma aluna dedicada e que alimenta sonhos de sucesso na advocacia ou em uma carreira pública, não deve se entusiasmar muito com seu colega que passa as aulas dormindo descaradamente, com a cabeça apoiada entre os braços na mesa ou consultando as últimas novidades futebolísticas no iPad. O que resultaria de um namoro entre tais pessoas? Haveria grande probabilidade de ela ser arrastada para essa fuga da responsabilidade ou, no mínimo, desestimulada de esforçar-se na busca de seus sonhos. Muito a perder, pouco a ganhar.
Mas o namoro pode ser fora da sala de aula. Um jovem promissor, com a vida pela frente e todas as oportunidades que ela oferece, pode envolver-se com alguém do outro prédio da Universidade, engenharia, medicina ou jornalismo, pouco importa.
Uma pessoa de outra área compreenderá a necessidade de sacrifício para alcançar seus objetivos? Saberá que nas profissões jurídicas o sucesso vai muito além de conhecer o Direito? Por exemplo, um jovem advogado precisa relacionar-se, conhecer pessoas, visitar, participar, mostrar-se. Uma pessoa da área técnica, com um bom emprego em uma indústria, poderá ter dificuldades para compreender esta circunstância. Aí é preciso um paciente trabalho de convencimento, mostrar que ambos serão beneficiados pelo sucesso dele.
Neste campo há a crise da “mulher do sargento”. O sargento vai galgando postos, passa a oficial, tem novos amigos. Mas a mulher fica na mesma vida de antes, tem medo da cidade grande, é envergonhada e sente-se menos que as outras. Evidentemente isto não ocorre só com sargentos, mas também nas profissões jurídicas. E ─ óbvio ─ pode ser também o marido quem tem medo de crescer. Nestes casos o melhor é o aconselhamento por pessoa de confiança ou recorrer a um psicólogo.
Os que têm por meta o concurso público, precisam ter ao lado alguém que compreenda que isto importa em recolhimento e renúncia a baladas e viagens por 4 ou 5 anos. Mas o candidato não deve abusar da paciência alheia, contando pela vigésima vez as perguntas feitas no concurso ou as diferenças entre a teoria de Alexy e Dworkin. Evidentemente, o (a) parceiro (a) terá que ter muito amor para aguentar o concurseiro e também inteligência para saber que a aprovação é uma conquista que vai além do bom salário. Ela significa, ainda, desfrutar de uma ascensão social que permite horizontes mais amplos. Tudo isto com reflexos positivos para toda a família, inclusive filhos.
Quem pretende seguir a carreira policial deve deixar claro, no início do relacionamento, que a profissão é de risco e que os horários não são os mesmos de um caixa de banco, que pode haver operações que impõem dias fora de casa e até ameaças. Quem se une a um policial deve estar disposto a essas circunstâncias e também à discrição, pois muitos se aproximarão para obter informações privilegiadas.
Não raramente, casais se unem após cursarem Direito. E inevitavelmente surgem as perguntas: é possível serem sócios no mesmo escritório? Dá certo misturar casa e trabalho? A experiência revela que nada impede que a união casa/trabalho dê certo nos dois lugares. Muitas vezes cada um tem uma aptidão diferente e a união completa as necessidades recíprocas. Por exemplo, ele pode ser um excelente relações públicas e ela uma conhecedora profunda do Direito. É uma receita que pode, sim, dar certo.
O ciúme também e um componente forte nessas relações profissionais. Em doses pequenas, não representa problema algum, no passado dizia-se que é o tempero do amor. Em doses exageradas, pode ser a destruição da vida profissional. Na trajetória dele ou dela, quanto maior o sucesso, maiores os compromissos. Confiar tem que ser a premissa. Desconfiar significa não apenas prejudicar a relação de amor, mas também criar obstáculos ao sucesso do parceiro. Um exemplo. Imagine-se um grupo de membros do Ministério Público que tenham divergências para resolver e escolhem um churrasco para discuti-las com calma, fora da repartição. Teria cabimento a parceira enciumada opor-se, sob o falso argumento de que a noite é para o descanso? Ou ir ao local e ficar na sala ao lado assistindo TV?
Situações de ciúme extremas devem ser evitadas, mesmo que no íntimo haja uma confissão igual à do conjunto “Ultraje a rigor” que, na música “Ciúme” relata sua adesão à vida moderninha, ser seguro e não impulsivo, contudo confessa “mas eu me mordo de ciúme...”.
Mas,o sucesso não é apenas conquista inicial, passar no concurso, abrir um escritório de advocacia. É também manter-se em boa situação durante toda a vida profissional. E aí o cuidado é permanente. Deve ser evitado ao extremo o que ocorreu com uma juíza do Amazonas, que acabou sendo punida com remoção pelo CNJ, porque “foi flagrada em escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal e autorizadas pela Justiça na Operação Vorax, em 2008, pedindo favores como emprego para o namorado, passagens aéreas e até um camarote para o carnaval do Rio de Janeiro, em troca de decisões judiciais favoráveis” .
Nas relações de afeto nem sempre a racionalidade é o ponto forte. E se a emoção prepondera, é preciso ter um pouco de habilidade na condução da vida a dois. Por exemplo, a defensora pública que, de comum acordo com o marido, entrou no curso do mestrado de uma Universidade, deverá ser moderada nos elogios entusiasmados ao professor de Direito do Consumidor. E a juíza, casada com um servidor da Justiça  ─ fato comum no Judiciário ─  deve zelar sempre para que ele tenha posição de destaque nas relações sociais, evitando que a hierarquia funcional avance na área doméstica e ponha tudo a perder.
Outro fato que pode ocorrer é a disputa entre o casal. Os dois conquistam espaço e a partir daí começam a disputar entre si. Quem tem título acadêmico, mais amigos no Face ou mais artigos publicados. A união para conquistar juntos dá lugar a uma competição despropositada. Quase sempre termina em separação.
O sucesso às vezes é dos dois e um deles não percebe. Em uma Comarca em que fui promotor de Justiça, havia um advogado excelente, muito respeitado, um vencedor. Sua esposa era fina, educada, admirada por toda a comunidade. Eis que ele se encanta com uma jovem de cerca de 16 anos, larga a família e une-se à adolescente. Todos na cidade se revoltaram e, a partir daí, sua vida profissional entrou em uma espiral decadente. Aquele homem não se deu conta de que seu sucesso não era só seu, era dela também. Separados, ainda por cima em circunstâncias que revelavam ingratidão, ele não era ninguém.
Como esse, muitos casos são narrados na tradição oral do mundo jurídico. Uns tristes, outros alegres. Houve o de um desembargador que, enquanto esteve casado com uma boa mulher, conseguiu ir galgando os degraus da carreira. Separado, perdeu os limites, caiu na noite, cometeu erros e acabou sendo aposentado compulsoriamente pelo CNJ. Há exemplos diametralmente opostos. A ministra Denise Arruda, que fez carreira na Justiça do Paraná, permaneceu solteira, “casou-se” com a magistratura, a ela e à sociedade dedicou sua vida, primeiro no seu estado e depois no STJ.
Há também carreiras promissoras que se perdem por conta do descontrole na busca do parceiro ideal. Depois de 3 uniões, 4 filhos em casas diferentes e pensões alimentícias a consumir 75% do que se recebe, é difícil imaginar que alguém tenha serenidade para produzir um trabalho sério, de qualidade, e ter sucesso profissional.
Em suma, é preciso atenção na escolha do (a) parceiro (a), avaliar muito antes de firmar o compromisso e, depois, ter inteligência para manter a chama acesa. Disto depende, muito mais do que se imagina, o sucesso, que exige sempre estabilidade emocional, segurança e tempo livre para o estudo e o trabalho.
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